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Homenagem ao Rafael Versão para impressão



DONA IARA AINDA ENTRA POR ESSA PORTA.


 

 

Dia primeiro de junho de 2011, Dona Iara entra e chega à Consultoria Geral para continuar mais uma etapa de sua jornada. Como todos os dias, ela levaria seu filho para mais um desafio.

Tarefa essa que seria banal para muitos de nós: o primeiro dia de trabalho, um novo trabalho para seu filho Rafael, seu primeiro, aliás... Mas o trabalho do filho Rafael era também trabalho para ela.

Quando os vi pela primeira vez, não vou esconder que o medo do novo ou do desconhecido tomou conta dos meus pensamentos. Dúvidas pairavam a minha mente: Será que vamos conseguir cuidar dele? Como vamos lidar com suas necessidades? Como ele desempenhará suas funções no Departamento?

As dúvidas se materializaram ainda mais quando Dona Iara entrou por essa porta, e vi o Rafael entrar e ser colocado na mesa. Por onde quer que olhasse para ele você não conseguia perceber de onde sairia o movimento, se é que havia movimento.

E ainda mais para uma pessoa como eu, que nunca tinha convivido com alguém em cadeira de rodas, nem ao menos com perda parcial de movimento, de repente se depara com alguém que visivelmente não fazia movimento algum.

Não perguntei o que ele tinha, não queria perguntar, percebi que ele não ficava confortável em falar de doença, mas de Futebol (diga-se S.E. Palmeiras), cinema e televisão.

Os dias se passavam e Dona Iara continuava entrando e saíndo por essa porta, e cada vez que isso acontecia, era superado um obstáculo a mais por essa dupla que eu aprendia, a cada dia, admirar mais.

A mãe, que praticamente dedicou os anos que uma tal de Síndrome da Distrofia Muscular de Duchenne (DMD) queria tirar de seu filho, não media esforços para vencer os obstáculos que essa doença tentava colocar.

Observando o esforço dos dois, fui entendendo como ter objetivos e contar com alguém que nos apóia é muito importante e torna os obstáculos pequenos diante da vontade de atingi-los.

E Dona Iara continuava entrando por essa porta, o que me impressionava cada dia mais, pois ficava cada vez mais evidente a dedicação da mãe e o empenho do filho em conseguir se adaptar ao novo desafio.

Passou o tempo e cada vez que Dona Iara entrava por essa porta, os colegas ficavam cada vez mais amigos e os momentos e experiências foram se acumulando e o Rafael passou a ser simplesmente ... Feellliiiiiccciiooooo!!!!!!!

A cada dia Dona Iara entrava por essa porta e eu ia vendo como uma pessoa é capaz de se superar, não importa o limite, nem uma doença que deixa seus músculos moles a ponto de não se mexerem mais, nem o fato de só poder mexer a ponta de um dedo, os olhos e a boca, nada disso.

Alías, Felício sabia muito bem usar o que dispunha para enfrentar seu desafios, bastou uma mesa, um computador com teclado virtual e a ponta dos dedos que ele já tinha o que precisava para fazer suas pesquisas.

Sei que aprendeu muito aqui: indenizações, reclamações trabalhistas, alvarás de desdobro, cancelamento de notificações e execuções e outros assuntos afins não intimidaram o Felicio.

Tudo isso era um acréscimo na caminhada para a realização de um grande sonho: se formar em Direito e ser o Advogado da Família, advogado com A maiúsculo. Dona Iara continuava entrando e saindo dessa porta com a certeza de que estava ajudando na realização desse sonho. Tenho certeza que ela foi aluna da faculdade de Direito, não  por direito, mas de fato, acompanhando o seu filho todas as manhãs nesses últimos anos e assistindo cada aula.

E cada vez mais que dona Iara entrava e saia por essa porta, minha amizade com Felício ia crescendo, não só comigo, mas também com os patrulheiros Marcos e Roberto, Duda, Elaine, Dra Maria Lúcia e todos aqui na Consultoria Geral.

Cada vez que Dona Iara entrava e saia por essa porta, aprendíamos como é importante dar uma chance a uma pessoa e tratá-la com amor e aprendíamos com o amor e devoção com que essa mãe tratava esse menino. Tinha cada vez mais certeza que ele foi colocado na família certa e que em nenhum minuto o amor e o carinho lhe faltaram.

Mas, certa vez, Dona Iara não entrou por essa porta.

O temor tomou conta da Consultoria: Onde está essa mulher? O que aconteceu com ela? Já passou em muito das cinco! Foi então que o Doutor Ricardo conseguiu falar com ela e descobrimos que Dona Iara não tinha entrado por essa porta porque foi visitar alguém e se esqueceu da vida e quando se lembrou, ficou aprisionada pelo trânsito do Grande ABC. Imagine quantas piadas o Felicio ouviu...

Mas Dona Iara continuava entrando e saindo por essa porta... Não podemos esquecer que nem sempre era ela quem entrava ou saia, pois quando não podia, tinha o Luiz, um amigo de infância que nunca se negava a ajudar o amigo a quem eu via tratar como irmão, realmente era um irmão.

Foram passando os meses e o rapaz evoluía ainda mais, pois com supervisão já elaborava pareceres simples e casos de queda de árvore já não eram para ele nenhuma complicação. Também foi evoluindo academicamente, as notas só melhoravam e foi fechando matéria por matéria.

Agora só faltavam dois obstáculos para a realização do sonho: com a conclusão do estágio se aproximando, as barreiras da OAB e da formatura se apresentavam e Felício precisava decidir com inteligência, pois vira que estágio, faculdade, prova da OAB e fisioterapia não conseguiriam preencher seu escasso tempo.

Esses fatores motivaram o seu desligamento do estágio em abril do corrente ano de 2012 e para mim ficou a certeza de que ele atingiria seus objetivos ao longo do tempo.

Colega de trabalho não éramos mais, mas amigos continuamos e tentamos manter contato e o Facebook se mostrou o meio mais prático.

Planos fizemos: o de ir ao seu aniversário esse ano eu tinha; e o de ele vir ao meu, embora não soubesse, também. Mas a vida nem sempre é como queremos ou imaginamos...

No meu aniversário atendi muito contente um telefonema da Dona Iara, esperando que fosse falar com Felicio e recebi a triste noticia de que ele estava internado com pneumonia, fiquei abalado. Não contente, liguei para o hospital e me disseram que se encontrava na UTI, começava a torcida.

Dias depois falei com sua irmã e ela disse que ele tinha previsão de alta...que não se cumpriu, pois no dia 14 de julho de 2012, Deus o chamou de volta para casa.

Fica a saudade, a lembrança, o aprendizado e privilégio que eu tive com sua convivência e companhia.

Mas digo que, desde o dia 18 de abril, último dia do estágio, fica em minha mente, pensamentos e no coração que Dona Iara ainda entra por essa porta.

 


Cristiano Fidencio de Moura.

 

 

 
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